Com a intensificação do El Niño e o aumento do risco de eventos climáticos extremos em diferentes regiões do Brasil, hospitais e serviços de emergência precisam estar preparados não apenas para atender pacientes individualmente, mas para responder a situações em que dezenas ou até centenas de vítimas podem chegar em um curto intervalo de tempo.
Dados divulgados por órgãos oficiais em setembro apontam mais de 90% de probabilidade de que o El Niño alcance intensidade muito forte entre setembro e novembro de 2026 (consulte aqui). O fenômeno pode favorecer chuvas intensas em parte do Sul e Sudeste, ao mesmo tempo em que aumenta o risco de seca e temperaturas elevadas em outras áreas do país.
Diante desse cenário, chamamos atenção para um aspecto que nem sempre é percebido pela população: em um desastre, o atendimento começa muito antes de a primeira vítima entrar pela porta do pronto-socorro.
Hospitais precisam ter planos de emergência atualizados, acompanhar alertas meteorológicos, manter comunicação direta com Defesa Civil, SAMU 192, Corpo de Bombeiros e autoridades de saúde e saber previamente quantos profissionais, leitos, equipamentos, medicamentos e insumos conseguem mobilizar diante de uma ocorrência de grande porte. Essas são algumas das recomendações que estão no nosso posicionamento sobre resposta hospitalar a desastres.
Quando chegam muitas vítimas ao mesmo tempo - Enchentes, deslizamentos, desabamentos e outros eventos extremos podem provocar os chamados incidentes com múltiplas vítimas — situações em que o número de pacientes ultrapassa, temporariamente, a capacidade habitual de atendimento de um serviço. Nesses casos, a lógica do pronto-socorro precisa mudar rapidamente.
A recomendação é criar uma área específica de triagem e classificar as vítimas conforme a gravidade, priorizando aquelas que necessitam de intervenções imediatas para sobreviver. Pacientes em estado crítico devem receber atendimento primeiro, enquanto pessoas em condições menos graves são direcionadas para outros fluxos assistenciais. É nesse cenário que o médico emergencista assume papel estratégico.
Segundo o nosso documento, a área responsável diretamente pelo atendimento às vítimas e pela reorganização da emergência deve ser conduzida, preferencialmente, por um médico emergencista. Entre suas funções estão direcionar as equipes assistenciais, reorganizar o fluxo do hospital, supervisionar a triagem, acompanhar o atendimento e ajudar a coordenar o transporte dos pacientes.
Salvar mais vidas exige organização - Em situações de desastre, não basta aumentar o número de médicos ou abrir mais salas. É preciso coordenar recursos que podem se tornar escassos em pouco tempo.
Por isso, recomendamos a implantação de um Sistema de Comando de Incidentes, estrutura que organiza quem toma decisões, quem coordena o atendimento, quem controla medicamentos, equipamentos e leitos e quem mantém contato com outras instituições.
A preparação também precisa prever situações aparentemente simples, mas que podem comprometer toda a resposta, como queda de energia, interrupção da internet, dificuldade de comunicação, falta de medicamentos ou impossibilidade de circulação de ambulâncias. Desastre não significa apenas um evento de grandes proporções. Tecnicamente, é uma situação que causa interrupção grave do funcionamento de uma comunidade e supera sua capacidade habitual de responder com os recursos disponíveis. Quando isso acontece, planejamento e decisões rápidas passam a ser tão importantes quanto o próprio atendimento médico.
As consequências para a saúde também podem continuar depois da fase mais aguda. Após enchentes, por exemplo, podem aumentar os riscos de leptospirose, hepatite A, tétano, problemas respiratórios, acidentes com animais peçonhentos e doenças transmitidas por vetores, além de traumas e complicações decorrentes do contato com água contaminada. Já reforçamos essas orientações em episódios recentes de chuvas intensas no país. (Abramede)
A preparação dos serviços de emergência precisa acompanhar a nova realidade climática. Monitorar riscos, treinar equipes e definir previamente como será feita a triagem e a distribuição das vítimas pode evitar improvisos justamente quando cada minuto faz diferença.
Mais do que atender quem chega ao pronto-socorro, o emergencista é um dos profissionais responsáveis por transformar um cenário de caos em uma resposta organizada, com prioridade para quem corre maior risco de morrer.