Desfibrilação em até dois minutos quase dobra a sobrevivência após parada cardíaca, mostra estudo
30/10/2026

Quando o coração para, minutos passam a definir o futuro do paciente. Mesmo dentro de hospitais, onde equipes e equipamentos estão disponíveis, a parada cardiorrespiratória permanece uma emergência de alta mortalidade. Estudo publicado em 2026, com 32.862 adultos que sofreram parada cardíaca em prontos-socorros dos Estados Unidos entre 2010 e 2021, mostrou que apenas cerca de 26% sobreviveram até a alta hospitalar.

No Brasil, um estudo publicado em 2021, realizado com 2.296 pacientes em 92 UTIs de 55 hospitais, encontrou mortalidade hospitalar de 83% entre pessoas admitidas após uma parada ou que apresentaram o evento já na unidade intensiva. Os dados, referentes a 2014 e 2015, não representam a realidade nacional atual nem especificamente os serviços de emergência, mas ajudam a dimensionar a gravidade do quadro.

Diante de uma parada cardiorrespiratória, não há tempo a perder. A prioridade é reconhecer a parada rapidamente, chamar ajuda e iniciar as compressões torácicas. O atendimento não pode depender de esperar a chegada de um especialista.

Dois minutos podem fazer diferença - A velocidade da desfibrilação pode ter impacto expressivo na sobrevivência. Um estudo que avaliou 6.789 paradas cardíacas ocorridas dentro de hospitais, em ritmos nos quais havia indicação de choque, encontrou sobrevivência até a alta de 39,3% quando a desfibrilação ocorreu em até dois minutos, contra 22,2% quando houve demora superior a esse período.

Uma das funções do médico emergencista é justamente coordenar essa resposta em um cenário em que várias decisões precisam acontecer praticamente ao mesmo tempo. O emergencista é formado para atender pacientes graves e coordenar a reanimação, interpretar o ritmo cardíaco, realizar a desfibrilação quando indicada, cuidar da respiração, administrar medicamentos e investigar a causa da parada.

O diferencial do médico emergencista (em comparação com outros médicos) está na formação voltada para decisões rápidas, priorização e coordenação do atendimento em situações críticas.

Cada minuto importa - Um estudo com 7.299 paradas cardíacas presenciadas fora do hospital, nas quais pessoas presentes não iniciaram a reanimação, mostrou que cada minuto adicional entre o chamado ao serviço de emergência e o início das manobras pelos profissionais esteve associado a uma redução relativa de 13% na probabilidade de sobrevivência até a alta com resultado neurológico favorável.

O objetivo não é apenas fazer o coração voltar a bater. Queremos que o paciente sobreviva com a melhor recuperação neurológica possível.

E o risco não some quando o coração volta a bater. No registro norte-americano, aproximadamente 71% dos pacientes que tiveram uma parada no pronto-socorro recuperaram a circulação, mas apenas cerca de 26% sobreviveram até a alta hospitalar. Após a recuperação dos batimentos, o paciente ainda corre risco de nova parada, queda importante da pressão arterial e lesões no cérebro e em outros órgãos.

Nas horas seguintes, a equipe precisa garantir níveis adequados de pressão e oxigenação, ajustar a ventilação, investigar a causa da parada e monitorar continuamente o funcionamento dos órgãos. Em pacientes que permanecem inconscientes, também são fundamentais o controle da temperatura, a prevenção da febre e a identificação e tratamento de convulsões.

O que precisa melhorar no Brasil – Entre as prioridades estão reconhecer precocemente pacientes que estão piorando, manter profissionais treinados periodicamente, realizar simulações, garantir desfibriladores e materiais disponíveis rapidamente e estabelecer funções claras entre os integrantes da equipe. Também é necessário assegurar acesso à terapia intensiva e ao tratamento da doença ou condição que provocou a parada.

Outro desafio é produzir mais dados brasileiros. Precisamos saber quanto tempo levamos para reconhecer uma parada, iniciar as compressões e realizar a desfibrilação quando indicada. Também precisamos acompanhar quantos pacientes recebem alta e como foi a recuperação. Fortalecer registros brasileiros permite identificar falhas e melhorar a assistência com base na nossa própria realidade.