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ABRAMEDE emite orientações sobre casos de intoxicação por metanol para médicos que atuam em emergências
30/09/2025

A Associação Brasileira de Medicina de Emergência (ABRAMEDE) emitiu, nesta terça-feira (30), orientações gerais sobre intoxicação por metanol voltadas aos médicos que atuam nos departamentos de emergência. A entidade reforça que a intoxicação por metanol (CH3OH), também conhecido como álcool metílico, é relativamente rara, mas pode ocorrer em surtos e está associada a alta mortalidade e morbidade, especialmente quando o diagnóstico é tardio.

Segundo a ABRAMEDE, a frequência exata varia conforme o contexto epidemiológico, mas em surtos recentes, a taxa de mortalidade pode chegar a 18-27% dos casos hospitalizados, e complicações como sequelas visuais ocorrem em até 20% dos sobreviventes.

Nas últimas semanas, a substância – que é utilizada em combustíveis, solventes e líquidos de limpeza – foi encontrada em bebidas alcoólicas adulteradas em São Paulo (SP). Até o momento, há registros de, ao menos, nove casos de intoxicação por metanol no estado. Há três mortes que estão sob investigação das autoridades (duas em São Bernardo do Campo e uma na capital paulista).

Sintomas - De acordo com a ABRAMEDE, a evolução clínica pode ser lenta, com latência de 6–24 horas após a ingestão, podendo ser maior se houver coingestão de etanol. A gravidade dos sintomas está relacionada à quantidade ingerida, ao tempo até o início do tratamento e à presença de acidose metabólica profunda. Os sinais clínicos mais característicos incluem: 

  • - Distúrbios visuais (como visão borrada e escotomas): presentes em 55–75% dos casos e são o sintoma mais frequente e específico. 
  • - Sintomas neurológicos: rebaixamento do nível de consciência, coma, convulsões, cefaleia.
  • - Sintomas gastrointestinais: náuseas, vômitos, dor abdominal.
  • - Acidose metabólica grave: geralmente com aumento do anion gap e do osmol gap, podendo evoluir para insuficiência respiratória e choque.
  • - Dispneia e taquipneia: secundárias à acidose.
  • - Sequelas: distúrbios visuais permanentes, sequelas neurológicas centrais e periféricas.

Orientações clínicas – A ABRAMEDE alerta que, no atual momento, diante de um quadro suspeito, sobretudo em pacientes com história de ingestão de álcool de procedência duvidosa e sintomas compatíveis (principalmente distúrbios visuais e acidose metabólica, o profissional de saúde deve realizar investigação clínica e laboratorial detalhada. Os exames recomendados incluem: gasometria arterial, eletrólitos, osmolaridade sérica, função renal, função hepática, acidose metabólica (avaliar e acompanhar) e avaliação oftalmológica

Em caso de confirmação de contaminação, o tratamento inclui: suporte básico de vida, hidratação venosa, correção da acidose metabólica, uso de antídotos específicos e, em casos graves, hemodiálise. Se a ingestão alcoólica tiver ocorrido a menos de uma hora, é recomendado o esvaziamento gástrico.

Notificação obrigatória - Todo caso suspeito deve ser imediatamente notificado ao Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN), além de ser encaminhado à vigilância municipal e à Central/CIEVS pelo e-mail notifica@saude.sp.gov.br, conforme orienta a ABRAMEDE. Segundo a Associação, ao notificar, é importante registrar informações sobre a bebida consumida, local de aquisição e outros possíveis indivíduos expostos, de modo a auxiliar as ações de vigilância e prevenção de novos casos.

Para orientações adicionais e discussões de casos, os profissionais podem acionar os Centros de Assistência Toxicológica. A lista completa está disponível no site da Secretaria de Saúde de São Paulo: Centros de Assistência Toxicológica

Dados nacionais - De acordo com um levantamento realizado pela ABRAMEDE, nos últimos dez anos, o Sistema Único de Saúde (SUS) registrou 45,5 mil atendimentos - relacionados a intoxicações no geral - que evoluíram para internação e, em alguns casos, para óbito.

Com base na série histórica, de 2015 e 2024, é possível estimar uma média de 4.551 casos de envenenamento ao ano. O índice fica em torno de 379 registros ao mês e com 12,6 casos ao dia. Isso significa que a cada duas horas, uma pessoa deu entrada numa emergência em consequência de ingestão de substâncias tóxicas em geral.

 

Referências

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